terça-feira, 20 de setembro de 2016

Não temos política colonial, nem um espírito colonial, nem um método colonial



Henrique Galvão, em Huíla. Relatório de Governo. 1929, confessa que não temos política colonial, nem um espírito colonial, nem um método colonial. Porque esta falta de uma doutrina colonial resulta em grande parte da ausência de uma Política Colonial, e a falta de uma e outra, eliminam, de entrada, a possibilidade de ideias coloniais práticas e eficientes. Fica sempre tudo à mercê das ideias dos governantes que passam, dado que cada ministro da pasta dispõe de ideia própria para governar as possessões ultramarinas, mas esta não é transmitida aos governadores, uma vez que estes também dispunham de ideias próprias, e o fenómeno vai reproduzindo-se em toda a escala hierárquica até ao mais simples amanuense. Uma situação que permite que tudo seja possível – até bons governos! Henrique Carlos Mata Galvão (1895-1970). Participa no golpe dos Fifis (1927). Deportado para Angola. Governador de Huíla (1929). Organiza a Exposição Colonial Portuguesa no Porto (1934). Deputado. Diretor da Emissora Nacional (1935). Lança a Exposição Colonial do Mundo Português (1940). Inspetor superior da administração colonial. Discurso parlamentar (22 de janeiro 1947). Fuga da prisão (1959). Assalto ao paquete Santa Maria e coordenação da operação de desvio de um avião da TAP (1961). Depoimento na ONU (13 dezembro de 1963).

Salvador, aqui em Angola, só os dois é que não comemos!



Monsenhor Manuel Alves da  Cunha (1872-1947). Cónego da Sé de Luanda. Desembarca na cidade em 1901. Promove luta contra a escravatura e o trabalho forçado. Vereador da câmara de Luanda e vogal da comissão administrativa do município (1914-1936). Cria, em 1919, um liceu em Luanda. Governa a diocese de como vigário capitular do bispado, de 1914 a 1933. Consultor dos ministros das colónias João Belo e Oliveira Salazar. Acusado de promover revolta em Angola, chega a ser deportado (1936). Segundo a tradição oral, dizia, ao passar pela estátua de Salvador Correia de Sá: Oh! Salvador, aqui em Angola, só os dois é que não comemos. A única estátua herdada do regime colonial que não é apeada pelas novas autoridades em 1975. Segundo Fernando Pereira, no blogue Recordações da Casa Amarela (28 de dezembro de 2012), seria um misto de Rasputine, Calvino e Quirino de Jesus. 

João Belo, o ministro colonial da Ditadura, venerável em Chai-Chai.



João Belo (1876-1928). Oficial de Marinha, com 29 anos de serviço em Moçambique, onde, em 1906, foi iniciado maçom na loja Cruzeiro do Sul, com o nome simbólico de Lobo de Ávila, chegando a venerável da Loja Dragão de Chai-Chai. Parente do poeta Afonso Lopes Vieira. Tanto participou nas campanhas de Mouzinho de Albuquerque contra os vátuas, como, depois, colaborou com alto-comissário Brito Camacho.  Ministro das colónias desde 9 de julho de 1926. Morrerá em 2 de janeiro de 1928. Não tem aderência à realidade reformista, a observação de Almeida Santos, segundo o qual o ministro resolveu regressar às origens, num misto de neo-sujeição e neo-assimilação, cortando cerce as asas dos impulsos autonomistas da monarquia constitucional e da república (Quase Memórias, I, p. 59). Os primeiros tempos da Ditadura, no plano colonial, continuam a rimar com a monarquia liberal e a Primeira República, com João Belo a ser aconselhado por Ernesto Vasconcelos, o chefe de gabinete dos progressista e com idênticas funções depois de 1910. Belo repete o gesto que a república jacobina teve face à monarquia liberal. É mero fruto do tempo e a maior parte das elites colonialistas está de acordo com processo, pelo que se compreende como os posteriores Anais da Revolução Nacional saneiam esta coincidência, da mesma maneira como o anticolonialismo de a posteriori reduz Belo à criação do Estatuto do Indigenato que, se é formalmente verdade, também constitui mera continuidade dos dois anteriores regimes.

O patriotismo imperial dos republicanos procura legitimar-se no internacionalismo



O pacto da Sociedade das Nações reflete o conceito colonialista, então assumido pela ordem internacional: são habitados por povos ainda incapazes de se dirigirem por si próprios nas condições particularmente difíceis do mundo moderno. O bem-estar e o desenvolvimento desses povos formam uma missão sagrada de civilização, e convém incorporar no presente Pacto garantias para o cumprimento dessa missão. O melhor método de realizar praticamente esse princípio é confiar a tutela desses povos às nações desenvolvidas que, em razão de seus recursos, de sua experiência ou de sua posição geográfica, estão em situação de bem assumir essa responsabilidade e que consistam em aceitá-la: elas exerceriam a tutela na qualidade de mandatários e em nome da Sociedade. O espaço de soberania portuguesa que, na véspera da Grande Guerra, ainda é alvo da partilha secreta entre a Alemanha e a Grã-Bretanha, tenta, sobretudo, defender-se no plano da comunidade internacional, nomeadamente pela Sociedade das Nações, para onde a república remete o seu principal vulto, Afonso Costa. Mesmo quando ainda se mantém o essencial do patriotismo imperial irredentista, já se reconhece que a melhor forma de o fomentar está na possibilidade de criação de uma espécie de reino unido, mesmo que, depois, venham a emergir novos brasis, a quem, sempre, podemos agradecer o facto de se tornarem independentes. Com efeito, o colonialismo republicano está condenado a ser internacionalista, em nome do patriotismo como parcela do cosmopolitismo, como é timbre da própria doutrinação maçónica.